#ViagemAoPassado: Sócrates, o doutor da bola

“Com destino e elegância dançarino pensador

Sócio da filosofia da cerveja e do suor

Ao tocar de calcanhar o nosso fraco a nossa dor  

Viu um lance no vazio herói civilizador

O Doutor! ”  

Sócrates Brasileiro, de José Miguel Wisnik

Foi médico, filósofo, atleta… uma lenda!

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Dr. Sócrates, ou Magro, como era conhecido, foi um dos maiores jogadores brasileiros, tendo seu auge no início da década de 1980. Iniciou a carreira ainda novo, com apenas 17 anos.

O Doutor foi inspiração além do futebol: sua vida fora dos gramados foi marcada de lutas e de determinação. Ele sempre militou por um país mais justo e pelo fim das desigualdades sociais. Foi um dos poucos jogadores a usar sua voz para marcar uma opinião política dentro e fora de campo.

Sócrates no Botafogo-SP

Dentro das quatros linhas, o craque começou sua trajetória no Botafogo de Ribeirão Preto, mas por causa da faculdade de medicina, quase não treinava.  Em 1978, foi para o Corinthians, onde se tornou um dos maiores ídolos da história do clube, se não o maior. Já era médico formado e ganhou da torcida o apelido de Doutor. Com o time, foi bicampeão paulista em 1982 e 1983. De acordo com o comentarista esportivo Juca Kfouri, Sócrates pode não ter sido o melhor jogador que o clube paulista e o Brasil tiveram, “mas certamente foi o mais único”.

DEMOCRACIA CORINTHIANA

Sócrates com icônica camisa do Timão.

Democracia Corinthiana foi um movimento que surgiu na década de 1980, no Corinthians, liderado futebolistas politizados como Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon. Constituiu o maior movimento ideológico da história do futebol brasileiro. Este foi um período da história do clube no qual decisões importantes como contratações, regras de concentração, direito ao consumo de bebidas alcoólicas em público e liberdade para expressar opiniões políticas eram decididas através do voto igualitário de seus membros, de modo que o voto do técnico, por exemplo, valia tanto quanto o de um funcionário ou atleta. Isso criou uma espécie de “autogestão” do time, algo revolucionário para o contexto em que estava inserido.

Certa vez, depois de o Corinthians ter perdido uma partida e ter sido ilhado no vestiário, cercado por torcedores, Sócrates marcaria os gols da vitória na partida seguinte e não comemoraria, em protesto. A torcida parecia entender os recados, a relação mais tensa e comprometida. Na final daquele campeonato paulista, o time entrou em campo com a faixa “Ganhar ou perder, mas com democracia”. Ganhou, levando democracia e delírio à Fiel.

Jogadores com faixa de protesto

Em uma entrevista logo depois do segundo título, Sócrates diria que “o Corinthians provou que liberdade dá melhores condições de trabalho”. Tudo isso em um período no qual a Presidência do Brasil era ocupado por um general, João Figueiredo, conhecido por comandar a abertura política à base do “prendo e arrebento”, como disse certa vez.

SELEÇÃO BRASILEIRA

Seleção Brasileira 1986

Participou de duas copas do mundo, mas infelizmente o título não veio em nenhuma das vezes. Em 1982, na Copa do Mundo realizada na Espanha, Sócrates era um dos grades talentos daquela que ficou marcada como uma das maiores seleções brasileiras de todos os tempos, que além do Doutor, tinha ainda grandes nomes do futebol mundial, como Zico, Toninho Cerezo, Serginho Chulapa e Paulo Roberto Falcão, todos sob o comando do lendário técnico Telê Santana. O Brasil acabou sendo eliminado pela Itália, na conhecida “Tragédia do Sarriá”. Sócrates ainda marcou um gol no confronto, mas a Itália venceu a partida por 3×2 e eliminou nossa seleção do torneio.

Sócrates na Seleção

Amigos do ex-jogador contam que ele ficou desolado com a derrota, mas encontrou forças para continuar com seu futebol e sua maestria. Em 1986, teve a segunda oportunidade de disputar o mundial, e desta vez a dor da derrota deve ter sido ainda maior, pois na disputa de pênaltis contra a França, Sócrates desperdiçou uma das cobranças que eliminaram o Brasil da copa.

O Craque também teve passagens por Fiorentina, Flamengo, Santos e finalizou sua carreira no Botafogo de Ribeirão Preto, no ano de 1989.

O “Doutor” faleceu aos 57 anos, no dia 4 de dezembro de 2011, em São Paulo, vítima de infecção generalizada. Poeticamente no dia seguinte, o Corinthians venceria seu quinto Campeonato Brasileiro. O craque já havia falado sobre os problemas de saúde que acarretou devido ao alcoolismo. Morreu jovem, deixou um legado, seis filhos e muita saudade em todos os que puderam acompanhar a grande carreira deste eterno ídolo do futebol brasileiro.

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