#ViagemAoPassado: Félix, a dúvida de 1970

Ser goleiro da seleção certamente é para poucos. Os escolhidos sempre são muito exigidos e sofrem uma pressão absurda. Tudo isso aumenta ainda mais quando se trata da Seleção Brasileira da Copa de 1970, considerada uma das maiores do mundo, repleta de craques e portadora de um futebol invejável.

Félix Miéli Venerando, soube muito bem como é ser pressionado até o limite quando se trata de defender o Brasil na competição mundial de futebol. Chamado carinhosamente de Papel, por ser tão magro e leve, o goleiro Félix deu seus voos rasantes e salvadores em jogos difíceis enquanto defendia a seleção na copa de 1970.

FUTEBOL Félix, goleiro do Fluminense, durante partida contra o São Paulo FC, válida pelo Campeonato Brasileiro de 1971 – Foto: Acervo/Gazeta Press

Infelizmente não é um dos goleiros mais aclamados do Brasil. Nunca teve aprovação total, mesmo tendo sido campeão mundial e brilhado dentro dos gramados, o craque nascido no bairro da Mooca, em São Paulo, iniciou a carreira no Nacional AC, da capital paulista. Depois foi para o Juventus, onde era reserva de ninguém menos que Oberdan Cattani (lenda do Palmeiras que encerrava seu ciclo pelo Moleque Travesso), o goleiro disse ter aprendido bastante com Oberdan e dividia seu tempo entre os gramados e o trabalho em uma fábrica.

Félix ainda adolescente no Juventus

Em 1954 Félix passou por um problema de saúde, o Juventus se negou a arcar com as despesas e o goleiro acabou dispensado pelo time. Foi na Portuguesa que ele começou a se destacar. No começo era reserva do goleiro Cabeção, mas em 1957 começou a surgir os primeiros rumores de que finalmente  o jovem paulista iria finalmente vestir a camisa 1 do time. O tempo passou e não foi dessa vez que a titularidade chegou: mesmo com a saída de Cabeção, a Lusa optou por contratar um goleiro com mais experiência, Carlos Alberto, que tinha passagem pelo Vasco da Gama.

Félix com a camisa do Portuguesa

Em 1963, já mais experiente, o arqueiro ainda não era visto como uma certeza no clube paulista. Nesta época, Félix vivia uma disputa interna com Orlando pela vaga de titular, e por isso não deixava de jogar mesmo com algumas dificuldades de saúde (como furúnculos na perna), com medo de perder o posto de goleiro principal.

Os machucados até tiveram sua utilidade: em entrevista à Placar, em 1976, Felix conta que em um clássico contra o Palmeiras, pelo Paulistão, a equipe sofria uma grande pressão do adversário, até que o goleiro retirou os curativos para ser atendido pelos médicos e assim esfriar o ímpeto dos alviverdes. A Lusa vencia por 2-1 e não podia conceder o empate. Ele se encharcou de sangue que saía das feridas, uma tática ardilosa para quebrar o ritmo dos palmeirenses que acabou funcionando.

Félix em um treino pelo Fluminense

Em 1968, foi para o Fluminense, onde provou com execelência que era um goleiro de classe mundial. Lá conseguiu fortalecer sua imagem como o principal nome do ofício no Brasil. Faturou a Taça de Prata em 1970 com o Flu e mais cinco Estaduais nos anos 70, tornando-se ídolo da torcida do tricolor carioca. As atuações pelo Tricolor foram decisivas para chegar ao posto de goleiro da seleção brasileira.

Seleção Brasileira de 1970

Não chegou a ser figura presente nas eliminatórias da Copa de 1970, pois não contava com a preferência do técnico Saldanha, e tinha a concorrência de nomes mais cotados, como Ado, Leão e Raul. Porém, quis o destino que Saldanha perdesse o cargo, e  foi quando Zagallo assumiu a seleção que surgiu a possibilidade de Félix brilhar e fazer parte da história do Brasil que se tornou tricampeão mundial.

Félix enquanto defendia a seleção Brasileira

Uma história sofrida, muitas barreiras e vários adversários. Félix morreu em 24 de agosto de 2012. O goleiro nunca foi uma unanimidade, sofreu com rejeição e em um dos seus últimos pedidos disse:

“Pelo menos quando eu morrer que parem de dizer que o Brasil ganhou a Copa de 70 apesar do Félix. O Barbosa foi crucificado por não ter ganho a Copa de 50 e eu por ter ganho a Copa de 70. Duas grandes injustiças!”

 

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