Espetacular: Corinthians x Palmeiras e a democracia de Gabriel

História Corinthians x Palmeiras

Na árvore genealógica da família, Gabriel é meu primo em segundo grau. Na prática, é meu filho — ou eu assim o considero; meu e de todo mundo aqui de casa. É uma história longa.

Sobre ele, aqui, basta-nos saber que é uma criança especial (nos dois sentido — você verá) e que é corintiano.

Um corintiano diferente, que gosta de colocar camisas de outros clubes. Inclusive de arquirrivais. Incluindo a do maior arquirrival — o Palmeiras, meu time.

Certa vez, ele me veio com essa conversa:

— Uá (Thiago, eu), o meu Corinthians é amigo do Palmeiras?
— Mais ou menos, filho.
— Por quê?
— É que eles são rivais. Bom, é meio complicado.
— Eles jogam juntos?
— É. De vez em quando jogam, quando tem clássico.
— Que nem a gente, no quintal?
— É. Que nem a gente lá no quintal.
— A gente é amigo.

Pronto. Me desarmou no mesmo instante. E justificou o porquê de ele, amante profundo que é do Corinthians, ter ficado quase o dia todo com o uniforme do Palmeiras.

Digo quase o dia todo porque, no comecinho da noite, a nossa — minha e muito dele — mamma trouxe de presente para ele uma camisa do goleiro Cássio, do Corinthians.

Cássio é ídolo do Gabriel. E, como é justo que seja, nessas horas o coração fala mais alto: ele arrancou a peita do Palmeiras e logo vestiu a alvinegra.

— Uá, Uá, Uá, olha o que eu ganhei.
— Que bonita – falei eu, com um esforço da gota.
— É do Cássio. Você gostou, Uá?
— Gostei, filho – e o esforço prosseguia.
— Foi a tia (a nossa mamma) que deu para mim.
— Ah, foi?
— Foi. Olha o número nas costas – disse, virando-se.
— Vamos ver: número 12. E o nome é “Cassiel”.
— Ô Uá – revirando-se —, não tem “Cassiel”.
— Ué, é Cássio com Gabriel.

Brincadeira bobinha, mas serviu para tirar uma risada dele. E eu, claro, resignei-me:

— Você está contente com a sua camisetinha do Corinthians?
— Sim.
— Bom, então completa o uniforme. Tira essa bermudinha do Palmeiras e põe o seu calção do Corinthians.
— Por quê?
— Ué, vai ficar de camisa do Corinthians e bermuda do Palmeiras?
— Não pode?

Me pegou na curva outra vez. Não pode?

— É meio esquisito, não é? — falei.
— Por quê?
— Porque são diferentes, filho.
— É?
— É. Um não tem nada a ver com o outro.
— Não?
— Não. Os escudos são diferentes. E olha as cores: o Corinthians é preto-e-branco, não tem o verde do Palmeiras.
— Uá, esse verde aqui é bonito.
— É?
— É. Eu gosto de verde.
— Gosta?

Não é muito comum um corinthiano gostar de verde. Ainda mais o esmeraldino palmeirense.

— Uá, você deixa eu usar os dois?

Quando ele me pediu essa permissão (imagine, pedir permissão para uma coisa dessas), eu lembrei do dia em que compramos a camisa do Palmeiras para ele.

Era um sábado. Fomos almoçar num shopping. Gabriel estava todo de Corinthians e quis uma peita que viu na Academia Store – a loja oficial do Palmeiras.

Eu entrei todo satisfeito. A vendedora brincou: “Agora ele vai ter uma camisa bonita”.

Mas, na entrada da loja, tinha um palmeirense, fardado, olhando para Gabriel e resmungando, falando de lado. Eu encarei o sujeito. Meu pai estava do lado de fora, também de olho. Qualquer palavra torta ou movimento em falso do cidadão para o menino, e o tempo ia fechar, e muito.

A gente ia brigar por causa de futebol — que Gabriel considera um jogo de amigos.

O garoto, felizmente, não teve (não tem) ainda tanto discernimento para entender essas coisas. Compramos o uniforme, ele saiu todo paramentado, perguntando sobre o Corinthians dele, e pronto.

Poderia ser simples assim. Por que não?

— Pode, filho — respondi. — Pode usar os dois, se você gosta.

Me deu um abraço e saiu correndo para ver vídeos do Cássio no computador. “Invertendo o jogo”, meu pai, da outra ponta da casa, falou:

— O menino é democrático.

Ainda vou ter essa inteligência.

Thiago “Uá” Zanetin, 32 anos, redator publicitário, São Paulo-SP.


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